quarta-feira, 16 de abril de 2014

Conversas de ginásio I


“Fogo, que gaja tão boa!” - Começamos logo bem – pensei -, enquanto fazia um pouco de supino para que o meu peito chegasse a um 34 copa B e a minha namorada não fugisse com outro, parecido com o Mark Ruffalo. Ouvia este pequeno prelúdio que daria um debate entre dois amigos, que encostados ao parapeito da janela descansavam os seus braços inchados e repletos de veias.

O meus ouvidos tornaram-se afinado, como os daquelas velhotas que estão todo o dia a janela, de robe com cores pardas e sujo dos pombos, que escutam todas as conversas, todas as vidas. Levantei-me da primeira série e meti mais dez quilos em cada lado. Hoje sentia-me imparável mesmo que os meus pulsos sentissem a dor do meu esforço.

“Que cú!”- Toma lá mais uma bujarda, só para saberes como se trabalha bem em Portugal na área do design feminino. Mais uma repetição de dez, mais cinco quilos em cada lado. A minha curiosidade, momentânea, aguça-se. “Quem será o alvo?” – Perguntei-me.

“Cú? E as mamas!?” – Dizia o mais franzino, porém também musculado, tentando separar as águas e metendo ponto assente que, caso tivessem um caso a três não se chateariam, um ficava com a parte de cima, outro com a zona traseira. Achei de amigo esse comentário. É nestas alturas que se vê a grande fraternidade entre os machos. É raro chatearmo-nos por uma mulher. O pessoal divide e não se fala mais nisso. (NOT!)

Na minha última série – quase que precisava de umas cuecas novas, devido ao peso -, senti o abanar das cabeças dos dois amigos, como quem dizia; “ Está aqui tão perto e não posso tocar.”. Foi aí que a minha curiosidade falou mais alto. Ao arrumar as bolachas, olhei para a gazela que estes dois leões gostavam de abocanhar ou, pelo menos, amassar. Era uma instrutora, a mais simpática diga-se de passagem, que sempre com o seu sorriso, andava de estação em estação a ver se alguém precisava de ajuda. O mistério estava desvendado.

Dois segundos depois, “Foda-se, o Jusoé não joga um caralho!” – Ah! exclamei com sensação de alívio, assim está bem. É mais confortável, sentir que os homens estão de volta ao normal. Mulheres! Não se assustem, pois este comportamento é que define o homem, acima de vocês, sempre o futebol. Esta coisa é simples para os homens: Olhou, gostou, avacalhou, mas há que continuar com a musculação, isto é, falar de futebol.

Foram mais de vinte minutos que falaram de bola. Jusoé, Fernando, Gáitan, Luísão e até o relvado, tomaram o espaço outrora ocupado pelo rego das mamas e do rabo; e os seus braços, outrora musculados e repletos de veias, transformavam-se a olhos vistos, em linguinis com tanto tempo de descanso. Estes meninos faziam uma série de dez repetições e descansam quinze minutos. Depois queixavam-se, já nos balneários e em frente ao espelho todos nus, que tinham que tomar suplementos. “Creatina, é que é!”. Não percebo porque é que, alguns, mexem no pirilau quanto estão em frente ao espelho. Reflexos da nossa evolução? Bem, adiante...

Já no banho ainda mandaram uma laracha, mas desta vez, sobre o Quaresma. “Foda-se com aquele penteado não vai longe.”. Dizia isto, um indivíduo que tem o cabelo em cone. Repito, em cone! Parece que a instrutora fora relegada para o último plano e, no fundo, aquelas mamas e aquele cú que quase os separavam, não passavam de um prelúdio que entre halteres desapareceu, dando lugar ao Benfica vs FC Porto desta quarta-feira, onde não existirá um único bom jogador.

Os ginásios são todos iguais, fala-se sempre de futebol com desdém, nunca ninguém é bom. Até já ouvi que o Messi ou o Cristiano Ronaldo são uma merda, e quando passa uma mulher gira, é cu e mamas para todo o lado, é faz e acontece, mordia e palpava, mas no fim o que interessa é, veemente dizer que alguém não joga um caralho. Isto é que é de homem, o resto são circunstâncias.

Aqui há gato!


quinta-feira, 6 de março de 2014

Whatsapp?

Se há coisa com a qual convivo mal, é com o objecto telemóvel tiritante, quando se está a falar com alguém. Há pessoas que não conseguem estar mais do que uma hora sem procurar o contacto visual no seu telemóvel.

No passado, a geringonça só servia para receber e fazer chamadas com uma radiação que fazia levantar os pêlos dos braços e apagar televisões quando se estava por perto, depois lá vieram as mensagens escritas; agora os telemóveis só não fazem tostas mistas por falta de queijo e fiambre. 

É o e-mail que chega, é o facebook que dá um alerta porque alguém fez “like”, é a imagem com frases de cortar os pulsos a falar sobre a vida, é a mensagem que cai, é o toque da amiga ou do amigo, é o twitter que apita, é alguém que publica uma foto no instagram, é o whatsapp que chega. 

Resumindo, é o patati-patatá do dia-a-dia que se encontra conectado ao pequeno visor e com o qual, parece-me, já não é possível não conversar sobre. Parece que o virtual se funde com o real e aí, prefere-se estar a ver o Facebook pelo telemóvel do que a ver um filme com alguém, prefere-se fazer “likes”, do que estar atento ao que outro está a dizer.

Não se apercebem que está sempre um totó (ou uma “totóa”) ao lado, à espera de contacto visual ou de dois dedos de conversa seguidos mas que, nunca chegam, porque há sempre um toque, uma vibração, um piscar de luzes que o remetem para segundo plano. 

Chego à conclusão que quando for grande, quero ser um telemóvel, mas dos bons: Um Iphone 7ª geração com tudo o que tenho direito. A maioria das pessoas não se apercebe deste síndrome. Às vezes até me dá uma certa vontade de rir porque, essas mesmas, são as que criticam o uso abusivo do telemóvel. 

Ainda bem que a tecnologia avançou no ponto de vista da leveza do instrumento senão, seria complicado manusear um telefone de discar antigo, para meter likes e afins, mas mesmo assim, cá desconfio, que as pessoas o fariam. 

Aqui há gato.
Vasco

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Her

Her, é um filme notável, com um excelente argumento o qual nos faz pensar no futuro da nossa sociabilidade. Até que ponto o mundo virtual chegará para colmatar as nossas necessidades afectivas é o cerne da questão deste filme.

Dissertando um pouco pela evolução tecnológica, hoje em dia somos bombardeados com novas oportunidades de expandirmo-nos. Seja através de lugares de conversação online, facebooks, porno-chachadas e afins, tudo tem uma nova dimensão no que toca ao contacto humano. Tanta tecnologia, mas nem por isso, isso nos torna mais “humanos” no conceito romantizado e literário. Vejo pessoas que se apaixonam por o mundo de uma forma virtual, que correm para os telemóveis e computadores para ver quem lhes fez like, quem está do outro lado para poder falar ou até, quem sabe, apaixonar-se. É um rame-rame constante de sons de alerta que disparam a toda a hora. Quem será desta vez que quer contactar comigo? Uma foto bonita e dois dedos de conversa e as pessoas (não generalizo, claro), mudam de curso de vida. Pergunto: Será isto a evolução de todos nós. Terá tudo a tendência para a Entropia?

Será mais real um abraço, ou um smile? Parece que toda a diferença que possa existir nestes dois simples conceitos se dilui no tempo. Já vi pessoas tristes por não receberem os likes suficientes para o seu Ego. Leva-me a crer que há uma dependência da mão virtual que nos afaga o Ego. Vivemos disto nestes tempos. Este filme fez-me pensar em muitas coisas, mas fez-me ter uma “certeza” sobre o lado desumanizado em que nos podemos tornar. Tornamo-nos sós, todos sós, mas rodeados de gentes com as quais não queremos contactos.

Todos cheios de sorrisos por receber simples like. Utilizo aqui a palavra like, não que tenha algo contra o Facebook, mas somente alusivo ao lado virtual do sistema do filme.

Não faço juízos de valor sobre quem depende para viver destes instrumentos saciadores de prazeres ocultos. Cada um é dono e senhor da sua vida, mas este filme genial foca-se no amor que todos queremos sentir e que muitas vezes só é possível através de uma inteligência artificial e não com uma pessoa real.

Seremos sempre presas fáceis para qualquer sistema cuja inteligência só servirá para nos expor as fragilidades e apoderar-se das nossas carências. Mas isso, deixar-nos-á entretidos até ao fim da vida. Por muito que as pessoas pensem num mundo não material, ou até mesmo cibernético, é esse mesmo material cósmico que nos torna reais não o contrário.

Mas… Whatever works.
Vale a pena ver. É muito bom!


Abreijos,
Vasco

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Philomena


Um filme fantástico, com humor e com dramatismo à mistura. Uma excelente interpretação da não menos excelente Judi Dench - Filomena. Uma mulher simples, de humildade exacerbada, que vê, em tenra idade, ser-lhe retirado o fruto do seu pecado (o filho) pelas madres do colégio que frequentava. Nunca desistindo da procura do mesmo em 50 anos, encabeça uma viagem decisiva ao lado de um ex-jornalista da CNN (Martin Sixsmith), um ateu convicto e por vezes arrogante, que lhe proporciona momentos diferentes e de alguma beleza. Uma Amizade de partilha de sentimentos que nos envolve do princípio ao fim, com um pano de fundo negro da história da Igreja Católica. Crença, Religião, Sentimentos, Ateísmo de mãos dadas numa luta constante até ao respeito mútuo.

A título pessoal tenho a dizer que, se fosse 150 anos mais velho, a Judi Dench não me escapava .;)

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Marius the maximus

Mais um grupo de, vá chamemos-lhes pelos nomes, filhos de puta que utilizam todas e mais algumas justificações para meter fim à vida de um animal. Tudo se passou num dos países mais desenvolvidos do mundo. Num Zoo dinamarquês, mais propriamente, na sua capital Copenhaga, foi abatida uma girafa “Marius” com 18 meses de idade com a simples justificação: “(…) o macho com 18 meses de vida tinha um elevado grau de parentesco com os restantes sete animais com que coabitava. Combater a endogamia (cruzamento de parentes próximos, o que acaba por não garantir a diversidade genética) poderia causar problemas em futuras crias pela consanguinidade. In Expresso”. 

É ridícula esta justificação para se meter fim à vida de um animal. Costumamos tantas vezes ouvir; “ Tive que abater o meu cão, porque tinha um cancro terminal”, mas nunca “Tive que abater o meu cão, porque a sua mãe (the bitch) vive também com ele.”. 

Choca-me ver que este Zoo é dos mais avançados do mundo e que rejeitou propostas, no meu ponto de vista fabulosas, de outros zoos para ficar com este belo exemplar de animal (uma delas, vindo de um privado - 680 mil dólares). A Associação Europeia de Zoos e Aquários, (que nome tão pomposo para quem não diz não ao abate do Marius), disse que nada podia fazer, pois não era dono do animal, somente responsável pelo mesmo. Assustador, não é? Sou responsável mas nada posso fazer contra o abate. 

Como este abate tinha como base preservar a espécie – sim, é verdade, preservar a espécie é executar para ficar somente com 5 ou 6 animais-, deu-se a tão badalada execução (tiro na cabeça, tão Old School). Posteriormente o seu corpo foi esquartejado, com direito ao visionamento público, incluindo crianças, e lançado aos leões para seu festim.



Só queria acrescentar que há métodos contraceptivos para estes animais de grande porte, porém, veja-se a justificação do zoo; “ (…) o uso de contraceptivos vai contra a ideologia do Zoo.”. Extraordinário, não é? A estupidez humana é mesmo infinita.

Não deixa de ser “engraçado” analisarmos a nossa espécie na grandeza destes actos hediondos. Este tipo de actos, julgamentos, são mais reveladores da nossa soberba do que qualquer outra coisa. Somos mesmo pequeninos.

Aqui há gato, ou melhor, não há girafa.


terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Momentos que a morte traz

Como escreveu na pedra a poetisa Safo de Lesbos; “ Se a morte fosse um bem, os deuses não seriam imortais.”. Ficamos cientes do medo que clandestinamente vive dentro de todos nós. Se os deuses não morrem, tal acontecimento não pode ser bom. Sendo algo a temer, é algo que só os que cá ficam têm que lidar. Com a morte eleva-se o sentimento adormecido de compaixão e a racionalidade da compreensão. Tomamos as palavras do morto como nossas, as suas vivências passam a ser contadas na primeira pessoa, choramos e rimos filtrados pela vida de quem já não se encontra no mesmo tempo e no mesmo espaço.

É a morte que limpa a alma de quem fica e desloca-nos para o lugar certo neste universo que, vezes e vezes sem conta, tentamos desafiar por pura soberba. Passamos a estar atentos ao nosso interior e aos que irredutivelmente amamos, nem que seja por breves instantes. Escalpelamos todos os porquês do desdouro, tomando a dor do defunto que, inerte, porfiamos dar vida em nós. É este o sentimento-maior que o ser humano tem: Sentir que o que jaz, ainda vive através das palavras e das suas histórias que, tão prematuramente como a sua morte, se tornam nossas para sempre.

Espoliamos literalmente quem num caixão eternamente habitará e, este acto inconsciente torna-se o mais altruísta: Salvar a memória de quem já não a pode salvar. A Morte ensina-nos que o Amor existe, perdoa mais do que vinga, partilha mais do que reserva e oferece o melhor de nós aos que, com dor, viverão até ao seu fim com as memórias de quem já partiu, sempre com a saudade de um último abraço.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

A bola de Ouro, patriotismos à parte.


Faltam poucas horas para a atribuição do tão famoso e polémico trofeu. A bola de ouro, que distingue o jogador de eleição do ano passado imortalizará esse jogador para todo o sempre enquanto houver o futebol. Ora as escolhas recaem sobre 3 nomes sonantes do futebol mundial: Cristiano Ronaldo, Messi e Ribéry. 

Sou português, é certo, mas acima de tudo considero-me uma pessoa “imparcial” ao analisar os factos. Ser o melhor jogador do mundo é uma definição muito vaga, pois não se sabe que tipo de requisitos os jogadores têm que possuir para o serem. Marcar muitos golos, terem as fintas mais exuberantes, ser um grande atleta, ter um talento nato, marcar mais golos, ganhar títulos, podiam ser uns desses requisitos, e certamente o serão. 

Cristiano Ronaldo é sem dúvida um fenómeno em todos os aspectos. Não é só um jogador extraordinário, ele é a definição física de atleta de alta competição. No campo faz sempre estragos com os seus remates, fintas e posicionamentos. Quem não gostava de ter o CR7 na sua equipa lá do bairro? Marcou 69 golos que, para um jogador que joga nas alas, são números do outro mundo. 69 golos, caramba, que máquina! 

Depois há Messi. Parece que nem precisa de treinar. É um talento que me faz lembrar Maradona. Um criativo nato em que “ninguém” lhe tira a bola dos pés e todo o futebol do Barcelona passa pelo seu esquerdo. É uma maravilha também vê-lo jogar. É muito rápido no drible, para ser verdade.

Deixei para o fim o menos candidato, potencialmente falando. Digo isto, porque não tem a projecção que as outras estrelas têm, começando logo pelo futebol onde habita. O futebol Alemão não tem o mediatismo do futebol Espanhol e não passa com grande frequência na SporTV, mas estamos a falar de um jogador que mesmo marcando a terça parte dos golos de CR7, ganhou tudo o que havia para ganhar pelo clube. Desde o campeonato Alemão, passando pela liga dos campeões, até ao campeonato de mundo de clubes, Ribéry esteve sempre na equipa, mostrando-se como o “maestro”. 

Penso que não podemos fechar os olhos a este facto. Que os melhores do mundo não podem ser só os virtuosos, mas os que fazem com que os títulos apareçam com muito trabalho. As selecções de todos estes intervenientes estão no mundial deste ano. logo este facto não pode decidir o que quer que seja, pelo que, e pela minha justiça penso ser justo (passo a redundância) a atribuição deste prémio a Ribéry.

Claro que se ele ganhar vai toda a gente cair em cima de Michel François Platini com as inúmeras teorias da conspiração, mas apelo à análise dos factos.

Sinto muito portugueses, mas não estaria a ser honesto comigo mesmo, se dissesse o contrário.

Aqui há gato.